"...Hoje, mais uma vez, tive de pedir um pouco mais de paciência ao meu senhorio. O coitado lá vai esperando (não sei até quando) que um dia num qualquer mês, eu consiga pagar a renda até ao dia 8!
...Hoje, mais uma vez, entrei em casa e acendi a luz...a medo! Ufa!, ainda não foi hoje que cortaram!
...Hoje, mais uma vez, fui pedir emprestado algum dinheiro para poder dar de comer ao meu filho. Não consegui comprar-lhe os iogurtes e a fruta tive que trazer à unidade...sei lá quando vou poder pagar o que pedi e também não podia abusar no pedido, já que não sendo a primeira vez, também pensamos (eu e quem eu pedi) que não será a última. Também tive que pedir mais um pouco ou não conseguiria ir trabalhar amanhã.
...Hoje, mais uma vez, fiz das tripas coração e sorri para um cliente quando, ao mesmo tempo, pensava se iria conseguir que me emprestassem algum dinheiro para comprar comer.
...Hoje, mais uma vez, fiz das tripas coração quando disse a um cliente que "não senhor, não temos disponível, mas sim senhor, no dia indicado faremos a entrega".
...Hoje, mais uma vez, deitei fora horas de trabalho quando foi preciso devolver dinheiro a um cliente.
...Hoje, mais uma vez, remexi em todas as minhas memórias para poder inventar mais uma desculpa para um cliente que reclamava a espera de meses.
...Hoje, mais uma vez, sai do meu local de trabalho sem saber se me vão pagar os trinta dias que já trabalhei, já lá vão mais nove e, pior, sem que alguém fosse capaz de me dizer o que quer que fosse sobre uma data. Pelo contrário, mandam-me trabalhar porque é para isso que me pagam!
...Hoje, mais uma vez, lembrei-me daqueles que ousam criticar quem não fez o seu pé de meia para, agora, poder ajudar quem tantos esforços faz para tentar pagar-me o ordenado.
E pensei, pensei que devem ter razão!
Eu devia ter poupado para ajudar quem agora tanto se preocupa com as minhas dificuldades. Devia ter cortado na alimentação do meu filho, não lhe devia ter dado tanta fruta e iogurtes e leite e peixe e carne e legumes e cereais. Devia ter cortado uma das minhas refeições diárias. Devia ter optado por viver numa barraca. Devia ter deixado o meu filho sozinho em casa, ou na rua a brincar, em vez de ter pago a alguém que tomasse conta dele enquanto eu estou a trabalhar em horários em que nenhuma escola está aberta. Devia ter impedido que os meus pais morressem para agora ter avós que tomassem conta do neto.
Devia ter feito, ou melhor não devia ter feito tanta coisa que julguei importante para a qualidade de vida do meu filho e da minha. Devia ter pensado que, um dia, aqueles que tanto se preocupam em encontrar formas de manter o meu posto de trabalho e tanto se batem por encontrar soluções para esta crise de forma a poderem pagar-me o ordenado, devia ter pensado que iriam precisar da minha ajuda.
E, ao não ter pensado neles e nesse dia, o castigo de ficar sem dinheiro para as necessidades mais básicas, minhas e do meu filho, é merecido!
Por tudo isto é que EU VOU FAZER GREVE! "